October142011

Os Imortais

Dos vales terrenos

chega até nós o anseio da vida:

impulso desordenado, ébria exuberância,

sangrento aroma de repastos fúnebres.

São espasmos de gozo, ambições sem termo,

mãos de assassinos, de usurários, de santos,

o enxame humano fustigado pela angústia e o prazer.

Lança vapores asfixiantes e pútridos, crus e cálidos,

respira beatitude e ânsia insopitada,

devora-se a si mesmo para depois se vomitar.

Manobra a guerra e faz surgir as artes puras,

adorna de ilusões a casa do pecado,

arrasta-se, consome-se, prostitui-se todo

nas alegrias de seu mundo infantil;

ergue-se em ondas ao encalço de qualquer novidade

para de novo retombar na lama.

Já nós vivemos

no gelo etéreo transluminado de estrelas;

não conhecemos os dias nem as horas,

não temos sexos nem idades.                                

Vossos pecados e angústias,

vossos crimes e lascivos gozos,

são para nós um espetáculo como o girar dos sóis.

Cada dia é para nós o mais longo.

Debruçados tranqüilos sobre vossas vidas, 

contemplamos serenos as estrelas que giram,

respiramos o inverno do mundo sideral;

somos amigos do dragão celeste:

fria e imutável é nossa eterna essência,

frígido e astral o nosso eterno riso.

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